Itajaí vai receber a temporada de cruzeiros num terminal desmontável, e a licitação ainda nem abriu
A prefeitura licita uma estrutura modular de 3.200 m² por R$ 12,2 milhões, com prazo de execução de 30 dias corridos. A sessão pública é em 10 de setembro, a primeira escala está marcada para 25 de novembro, e o motivo de tudo isso é que a The Ocean Race 2027 vai ocupar o prédio onde os cruzeiristas eram recebidos.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Três datas explicam a matéria de hoje, e elas estão fora de ordem.
10 de setembro de 2026: abertura das propostas da licitação do novo receptivo de passageiros de cruzeiros de Itajaí.
25 de novembro de 2026: primeira escala prevista da temporada na cidade.
31 de março de 2027: chegada da The Ocean Race, a regata que motivou tudo isso.
Entre a primeira data e a segunda existem setenta e seis dias, e dentro deles precisam caber julgamento das propostas, habilitação, prazo recursal, homologação, assinatura de contrato, ordem de serviço e mais trinta dias corridos de fabricação, transporte, montagem e comissionamento de uma estrutura de 3.200 metros quadrados.
Não é impossível. É apertado, e vale acompanhar.
O que exatamente está sendo licitado
O documento é a Concorrência Eletrônica nº 017/2026, da Prefeitura de Itajaí, por intermédio da Secretaria Municipal de Turismo. Vale registrar de quem é o processo, porque é fácil confundir: desde 1º de janeiro de 2026 quem administra o Porto de Itajaí é a Codeba, e este edital não é do porto, é do município.
| Ficha do edital | |
|---|---|
| Processo | Concorrência Eletrônica nº 017/2026, SIPE nº 250043/2026 |
| Órgão | Município de Itajaí, Secretaria Municipal de Turismo |
| Publicação no PNCP | 25 de agosto de 2026 |
| Objeto | Estrutura modular multiuso, desmontável, transportável e reutilizável, para apoio às operações de embarque e desembarque de passageiros |
| Regime | Empreitada integral, com projeto executivo por conta da contratada |
| Critério | Menor preço global |
| Valor global estimado | R$ 12.197.557,30 |
| Área útil de referência | 3.200 m², cerca de 80 m por 40 m |
| Prazo de execução | 30 dias corridos a partir da ordem de serviço |
| Vigência do contrato | 120 dias corridos da assinatura |
| Sessão pública | 10 de setembro de 2026, às 9h, plataforma BNC Compras |
| Local | Rua Izabel Ramos Fabeni, Vila Portuária, Itajaí |
| Situação em 30/08/2026 | Sem vencedor, sem contrato, sem ordem de serviço |
A palavra que organiza o projeto é desmontável. O objeto descrito no edital não é um prédio, é um conjunto industrializado que pode ser transportado e remontado, e o próprio texto prevê reaproveitamento em outras temporadas e eventos. Isso muda a leitura do gasto: não é uma estrutura descartável de uma temporada só.
Os números de dimensionamento também estão no processo. O estudo técnico preliminar fixa ocupação simultânea de 1.000 a 1.100 passageiros, sendo cerca de 504 em áreas de espera e cerca de 560 em estações de fila e processamento, e trabalha com atendimento de até cerca de 3.700 passageiros por escala, tendo o Costa Diadema como navio de referência. Os itens mais caros da planilha são a estrutura modular em si (R$ 3,24 milhões), a cobertura (R$ 1,47 milhão), o piso (R$ 1,41 milhão) e a climatização (R$ 1,04 milhão).
⚠️ Três coisas no processo ainda não fecham, e nenhuma delas é escândalo. Primeira: o edital e o termo de referência dizem 30 dias corridos de execução, e o estudo técnico preliminar diz 45. Vale o edital, mas a inconsistência existe no mesmo processo. Segunda: a soma dos dez itens da planilha dá R$ 9.779.940,63, contra os R$ 12.197.557,30 de valor global estimado, uma diferença de 24,7% compatível com BDI, sigla que não aparece em nenhum dos documentos publicados. Terceira: o próprio estudo lista como condições prévias ao lançamento do edital a manifestação formal da Polícia Federal e da Receita Federal sobre os fluxos migratórios e aduaneiros, e a formalização da cessão do terreno. Não localizamos comprovação pública de que as duas foram cumpridas antes de 25 de agosto. São perguntas legítimas para a prefeitura, não acusações.
Por que provisório: a regata ocupou o prédio
A resposta é menos burocrática do que parece.
Itajaí não tem terminal de passageiros de cruzeiros. Os navios atracam nos berços do porto e o receptivo vinha sendo montado no Centreventos Governador Luiz Henrique da Silveira, que é um centro de eventos fazendo às vezes de terminal.
A etapa da The Ocean Race 2027 em Itajaí vai de 31 de março a 18 de abril de 2027, e o Centreventos integra a Vila da Regata. O termo de referência da licitação diz, com todas as letras, que a realização da regata impõe a liberação integral do Centreventos com antecedência estimada de 90 dias, o que inviabiliza usá-lo como apoio à operação de cruzeiros na temporada 2026/2027.
Some a isso o argumento que o próprio município colocou por escrito no processo: o Centreventos tem limitações operacionais e fragilidades no atendimento às exigências da Polícia Federal e da Receita Federal. Ou seja, a solução improvisada que funcionava já estava no limite antes de a regata aparecer na agenda.
O anúncio público foi feito pela secretária de Turismo, Gabriela Kelm, no 8º Fórum CLIA Brasil 2026, em Brasília, em 26 de agosto.
⚠️ Uma licitação publicada não é uma obra contratada. É o segundo degrau daquilo que já chamamos aqui de método dos três degraus: anúncio, contrato, obra. O edital existe, tem número, valor e data, e isso é muito mais do que um anúncio. Mas ele ainda pode ser impugnado, a sessão pode dar deserta ou fracassada, e o resultado pode ser questionado por recurso. Nenhuma dessas hipóteses é irregularidade, todas são rotina, e todas consomem os dias que faltam até novembro.
O terminal definitivo é outra história, e é bem mais longa
Aqui é onde as manchetes se atrapalham, então vale separar com cuidado.
Circula desde abril a informação de que Itajaí terá um terminal de cruzeiros de mais de 20 mil m², três pavimentos e cerca de R$ 300 milhões. O projeto existe: o masterplan foi elaborado pela WSP, contratado e custeado pelo Instituto Mais Itajaí, associação de empresas locais que já bancou outros estudos da cidade, e doado ao poder público.
O que não se sustenta é o encadeamento que costuma vir junto.
| O que se diz | O que está publicado |
|---|---|
| ”Será o maior terminal de cruzeiros do país” | O prefeito Robison Coelho disse “o melhor”. O “maior” apareceu na reprodução. O Concais, em Santos, ocupa área operacional de 41.895 m², e o novo terminal projetado para o Valongo tem 34.340 m² de área construída |
| ”R$ 300 milhões do Governo Federal” | É investimento previsto da futura arrendatária privada da área ITJ01, não obra do Tesouro |
| ”Vai receber 180 mil turistas por temporada” | Não é capacidade de projeto. É a ordem de grandeza do movimento já realizado, reciclada como número do terminal novo |
| ”O projeto está em andamento” | A consulta pública da ANTAQ correu de 29 de junho a 13 de agosto de 2026, o edital ainda vai ao TCU, o leilão está previsto para o primeiro semestre de 2027 e a arrendatária terá até o sexto ano de contrato para entregar |
Vale insistir num ponto de vocabulário, porque ele é a origem de metade da confusão: comparar “mais de 20 mil m²” de Itajaí com os “41,9 mil m²” de Santos é comparar coisas diferentes. O número de Santos é área operacional arrendada, que inclui pátio e logística, e não existe número oficial publicado de área construída do Concais. Dá para dizer com segurança que o projeto de Itajaí seria maior que os terminais de Salvador (7.678 m² construídos) e de Maceió (5.678 m²). Não dá para dizer que seria o maior do país.
O objeto principal do arrendamento da ITJ01 é carga conteinerizada, com cerca de R$ 2,6 bilhões de investimentos previstos em 25 anos. O terminal de cruzeiros entra como obrigação acessória, com estudos até o terceiro ano e implantação até o sexto. Somando leilão em 2027 e esse prazo, a entrega realista fica no início da próxima década.
Quantos passageiros são, de verdade
Este é o ponto em que quase toda cobertura de cruzeiro escorrega, e o erro não é de má-fé, é de vocabulário.
O estudo técnico da própria licitação cita o Relatório Executivo da Temporada de Cruzeiros 2025/2026 da Secretaria Municipal de Turismo e Eventos: entre 30 de novembro de 2025 e 18 de abril de 2026, cerca de 140 dias de operação, Itajaí registrou 169.511 passageiros em 37 escalas, com cinco navios de quatro armadores.
Esse número soma embarques, desembarques e passageiros em trânsito. Não são 169 mil turistas distintos passeando pela cidade, e o passageiro em trânsito costuma ficar de oito a doze horas em terra. Em abril, ao encerrar a temporada, a mesma secretaria havia divulgado 38 escalas e mais de 164 mil passageiros. A diferença é pequena, mas ela existe e o balanço foi revisado.
⚠️ O valor de impacto econômico merece uma ressalva forte. O processo apresenta R$ 48,7 milhões como impacto estimado da temporada 2025/2026. O problema é a série histórica, toda divulgada pela mesma prefeitura: para a temporada 2024/2025, com 154,6 mil passageiros, o município divulgou cerca de R$ 121 milhões, usando gasto médio de R$ 773 por passageiro. E o mesmo valor de R$ 48,7 milhões já apareceu associado à temporada 2023/2024, que teve 113 mil passageiros. Ou seja: a temporada com mais gente aparece com menos da metade do impacto da anterior. A metodologia nunca foi publicada, e não localizamos o Relatório Executivo em canal público. Por isso não usamos aqui a palavra “recorde” para o valor financeiro. O que a prefeitura chama de maior temporada da história é o volume de passageiros, não a cifra.
Sobre o ranking, também vale precisão. A formulação segura é a seguinte: segundo a Costa Cruzeiros, Itajaí é hoje o segundo maior porto de embarque de cruzeiros do país, atrás apenas de Santos. É uma afirmação de armadora, e é sobre embarques, não sobre passageiros movimentados. O balanço da CLIA para a temporada 2025/2026 lista os sete portos de embarque e desembarque do país sem publicar ranking por passageiros.
A diferença entre as métricas fica evidente no quadro abaixo, e ele guarda uma ironia útil.
| Temporada 2025/2026 | Passageiros movimentados | Escalas |
|---|---|---|
| Santos | cerca de 830 mil | 134 |
| Rio de Janeiro (Píer Mauá) | cerca de 240 mil | 84 |
| Salvador | cerca de 190 mil | 62 |
| Balneário Camboriú | cerca de 180 mil | 46 |
| Itajaí | 164 mil a 169 mil | 37 a 38 |
| Maceió | cerca de 150 mil | 35 |
A ironia é Balneário Camboriú, que não tem porto. Os navios fundeiam a cerca de um quilômetro da praia e os passageiros chegam de embarcação de apoio. Mesmo assim, a cidade movimentou mais passageiros e recebeu mais escalas do que Itajaí na mesma temporada.
Uma coisa é receber gente. Outra, bem diferente e bem mais cara, é ter estrutura de embarque com controle migratório, alfândega e triagem de bagagem. É exatamente essa segunda coisa que está sendo licitada agora, e é ela que faz de Itajaí um porto de origem de viagem, e não apenas uma parada.
Um contexto que raramente acompanha a manchete: a temporada brasileira encolheu. O estudo da FGV encomendado pela CLIA, apresentado em 26 de agosto, aponta R$ 4,76 bilhões movimentados no total, queda de 21% sobre o ciclo anterior, com 235,2 mil passageiros a menos na cabotagem. Os 64,5 mil empregos citados são postos sustentados, não criados. Para 2026/2027 a projeção é de recuperação, com oito navios e 24% mais leitos, abrindo em 31 de outubro de 2026. A primeira escala em Itajaí está prevista para 25 de novembro.
A regata, com a conta inteira
A The Ocean Race é o evento que reorganiza o calendário de Itajaí, e ela merece o mesmo tratamento que damos a qualquer projeção.
Antes dos números, o que é fato: 2027 será a quinta vez que a cidade recebe a regata, depois de 2011-12, 2014-15, 2017-18 e 2022-23. Itajaí segue como a única parada da América Latina, e é cidade-sede contratada até 2031. Isso não é promessa, é histórico.
A Prefeitura de Itajaí projeta entre 420 mil e 500 mil visitantes e R$ 270 milhões de impacto para os 19 dias de vila da regata em 2027. A estimativa foi apresentada em painel no Marina Itajaí Boat Show, em 3 de julho de 2026. Nenhuma das coberturas identifica a consultoria, universidade ou órgão que produziu o estudo.
O histórico ajuda a calibrar.
| The Ocean Race em Itajaí | 2023 | 2027 (projeção) |
|---|---|---|
| Duração da vila | 26 dias | 19 dias |
| Público esperado | 500 mil | 420 mil a 500 mil |
| Público realizado | 381 mil | ainda não ocorreu |
| Impacto divulgado | R$ 187 milhões no balanço de setembro de 2023, citado como R$ 195,6 milhões em 2026 | R$ 270 milhões projetados |
| Custo da operação | R$ 19,2 milhões | R$ 48 milhões, sendo cerca de R$ 40 milhões públicos |
Ou seja: a mesma meta de meio milhão de pessoas que não foi atingida em 2023 está sendo repetida para um período sete dias mais curto. E o custo público mais que dobrou, com R$ 12,3 milhões já liberados pelo Governo de Santa Catarina.
Nada disso desqualifica o evento. A edição de 2023 entregou 381 mil visitantes, que é um número grande para uma cidade de porte médio, e a regata colocou Itajaí num circuito internacional que dinheiro de publicidade não compra. O ponto é outro: quando a projeção vem de quem paga a conta, ela é uma meta, não uma previsão. Vale guardar os dois números e conferir em abril de 2027.
O outro relógio: o canal
Enquanto a cidade organiza a chegada de gente pelo mar, o canal que traz os navios segue no assunto que tratamos aqui na quinta-feira passada, e houve fato novo.
Na sexta-feira, 28 de agosto, a ZP21 Práticos pediu à Delegacia da Capitania dos Portos de Itajaí que a Folga Abaixo da Quilha adicional suba dos atuais 80 centímetros para 1,30 metro. O pedido, assinado pelo diretor-presidente Paulo de Figueiredo Ferraz Júnior e pela diretora técnica Lívia Lage Bisaggio, e endereçado ao delegado Daniel Tavares Reis, alega condições do canal por falta de dragagem, com manobras sendo feitas no limite operacional dos rebocadores e da capacidade de governo dos navios. A praticagem afirma ainda não ter recebido os levantamentos hidrográficos categoria B da área do porto organizado.
No mesmo dia, a Superintendência do Porto de Itajaí informou que a draga Utrecht retorna ao complexo nesta segunda-feira, 31 de agosto, e classificou o pedido da praticagem como preventivo. As chuvas, segundo a superintendência, impediram concluir os levantamentos e a dragagem. Os novos dados vão à Marinha, que decide.
⚠️ Não misture os dois assuntos mais do que os documentos permitem. A discussão sobre folga abaixo da quilha, tanto nos ofícios quanto nas manifestações do setor, trata de navios de maior calado e de movimentação de cargas. O Costa Diadema, navio de referência do próprio edital do terminal, tem calado da ordem de 8,3 metros, muito abaixo dos 12,2 metros encontrados no trecho crítico da bacia de evolução. Tecnicamente a restrição atual não deveria alcançar os cruzeiros, e não localizamos nenhuma informação pública de que tenha alcançado. Os dois fatos acontecem no mesmo canal, na mesma semana, e isso é digno de nota. Mas até aqui é coincidência de calendário, não relação de causa comprovada.
O que isso muda para quem olha imóvel
Nada, se a expectativa for de efeito direto no preço. E aqui a honestidade é obrigatória.
Não existe estudo independente que meça efeito de cruzeiros, ou da The Ocean Race, sobre o preço de imóveis em Itajaí ou na região. Procuramos em universidade, em índice de mercado e no próprio levantamento da FGV encomendado pela CLIA, que mede gasto por passageiro, empregos e arrecadação, e não preço de imóvel. As afirmações que ligam uma coisa à outra circulam em material de imobiliária e de incorporadora, e a estimativa mais repetida, de que cruzeiros impactam “em até 5%” os negócios imobiliários, sai de uma única pessoa, que vende imóvel na região, reproduzida em vários veículos como se fossem várias fontes.
Há ainda um contraexemplo que resolve a discussão. O Brasil recebeu cerca de 235 mil cruzeiristas a menos na temporada 2025/2026, e o metro quadrado catarinense não desacelerou por causa disso.
O que dá para dizer com dado é mais modesto e mais útil: cruzeiro e regata são demanda fora de pico, e demanda fora de pico sustenta emprego, serviço e ocupação hoteleira nos meses em que a praia não sustenta sozinha. É o mesmo raciocínio que aplicamos ao olhar a aposta de Itapema contra a sazonalidade e o acesso aéreo pela região. Não é o que faz o preço subir. É o que faz a economia local funcionar em maio.
Para dimensionar o mercado da cidade, o número é o nosso.
| Índice Orla Prime, agosto de 2026 | Itajaí | Navegantes |
|---|---|---|
| Empreendimentos não entregues | 134 | 95 |
| Unidades | 8.894 | 2.924 |
| Disponíveis | 2.853 | 811 |
| Preço pedido mediano por m² | R$ 15.213 | R$ 10.397 |
| Tíquete mediano | R$ 955.839 | R$ 720.121 |
| Metragem mediana | 71 m² | 71 m² |
| Percentual já negociado | 67,2% | 72,0% |
Itajaí tem quase três mil unidades novas disponíveis e um tíquete mediano abaixo de um milhão de reais, num município cuja base econômica é porto, pesca, indústria naval e, agora, um calendário de eventos sendo montado com prazo curto. Esse é o retrato. O resto é acompanhamento.
A leitura da Orla Prime
Tem uma frase escondida nessa história que resume o litoral norte inteiro: a cidade cresceu mais rápido do que os prédios que ela usa para funcionar.
Itajaí é o segundo maior porto de embarque de cruzeiros do país segundo a maior armadora que opera aqui, vai receber pela quinta vez uma regata internacional, é cidade-sede contratada até 2031, e recebe cruzeirista num centro de eventos que não foi feito para isso e que o próprio município diz ter fragilidade no atendimento às exigências da Polícia Federal e da Receita Federal. A solução para 2026 é uma estrutura desmontável com trinta dias de prazo. A solução definitiva depende de um leilão que acontece em 2027 e de uma obrigação que corre até o sexto ano de um contrato que ainda não existe.
Isso não é uma crítica à cidade. É a descrição de um lugar em que a demanda chegou antes da infraestrutura, o que acontece em toda região que cresce depressa, e que já vimos aqui em obra pública, em mobilidade e no próprio canal do porto. A diferença é que dessa vez o remendo está publicado, com número de processo e valor estimado, e dá para conferir se ele funcionou.
Vale ainda registrar o mérito da escolha. Diante de um prazo impossível para obra permanente, o município optou por uma estrutura industrializada, desmontável e reutilizável, em vez de gastar com algo que serviria uma temporada só. É uma decisão defensável, e o edital deixa isso explícito. O que ainda não está resolvido é o cronograma, e é isso que vamos acompanhar.
Para quem avalia um imóvel em Itajaí, a informação que interessa não é a projeção de meio milhão de visitantes. É saber que a cidade tem um calendário econômico que ocupa novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, março e abril, e que esse calendário está sendo construído com estrutura provisória enquanto a definitiva depende de um contrato futuro. Quem compra fundamento compra o calendário. Quem compra manchete compra a projeção.
Os números do nosso levantamento estão abertos, cidade por cidade, com a metodologia inteira e a amostra de cada linha, em Índice Orla Prime. Pode conferir, pode citar e pode discordar.
Bússola Orla Prime. Se você está avaliando um imóvel em Itajaí ou Navegantes e quer entender o que sustenta a demanda daquela região específica, a gente levanta o que está publicado e manda a leitura, inclusive quando ela for desanimadora. É de graça e não exige que você seja cliente.
Fontes: Portal Nacional de Contratações Públicas, Município de Itajaí, Concorrência Eletrônica nº 017/2026, processo SIPE nº 250043/2026, publicada em 25/08/2026, com edital, termo de referência, estudo técnico preliminar e memorial descritivo; portal de licitações da Prefeitura de Itajaí; DIARINHO, 28/08/2026, editado em 29/08/2026 (anúncio do novo receptivo e motivação) e 28/08/2026 (pedido da ZP21 Práticos para ampliação da Folga Abaixo da Quilha e retorno da draga Utrecht); ND Mais, 20/04/2026 (encerramento da temporada de cruzeiros 2025/2026), 24/10/2025 e 19/11/2024 (projeções e impacto das temporadas anteriores), 23/04/2026 (projeto do terminal definitivo) e 06/07/2026 (projeções da Prefeitura de Itajaí para a The Ocean Race 2027); ND Mais e NSC Total, setembro de 2023 (balanço da edição 2023 da regata); Panrotas, 26/08/2026 (estudo FGV e CLIA sobre a temporada 2025/2026, apresentado no 8º Fórum CLIA Brasil) e maio de 2026 (calendário da temporada 2026/2027); Portal World Cruises e Diário do Rio, abril e maio de 2026 (encerramento das temporadas de Santos, Rio, Maceió e Balneário Camboriú); Socicam, 08/07/2024 (área do terminal de Salvador); Brasilturis, 06/04/2026 (área do terminal de Maceió); Concais e Estudo de Impacto de Vizinhança do terminal, Prefeitura de Santos, abril de 2019 (área operacional de 41.895 m²); ANTAQ, Consulta e Audiência Pública nº 07/2026, arrendamento da área ITJ01 do Porto de Itajaí; Índice Orla Prime, edição de agosto de 2026, apurada em 24/08/2026.
Perguntas frequentes
Por que Itajaí precisa de um terminal de cruzeiros provisório?
Porque o Centreventos Governador Luiz Henrique da Silveira, que vinha sendo usado como receptivo de passageiros, ficará indisponível. A etapa da The Ocean Race 2027 em Itajaí acontece entre 31 de março e 18 de abril de 2027 e, segundo o termo de referência da licitação, exige a liberação integral do espaço com antecedência estimada de 90 dias, o que cobre boa parte da temporada de cruzeiros 2026/2027. O mesmo documento registra que o Centreventos tem limitações operacionais e fragilidades no atendimento às exigências da Polícia Federal e da Receita Federal.
A obra do terminal modular já está contratada?
Não. Trata-se da Concorrência Eletrônica nº 017/2026 da Prefeitura de Itajaí, processo SIPE nº 250043/2026, publicada no Portal Nacional de Contratações Públicas em 25 de agosto de 2026, com valor global estimado de R$ 12.197.557,30 e sessão pública marcada para 10 de setembro de 2026, às 9h, na plataforma BNC Compras. Até o fechamento desta matéria não havia vencedor, homologação, contrato assinado nem ordem de serviço. O edital prevê prazo máximo de 30 dias corridos para a execução integral do objeto, contados a partir da ordem de serviço.
Esse é o terminal de cruzeiros definitivo de Itajaí?
Não. O terminal definitivo, com mais de 20 mil m² e investimento estimado em cerca de R$ 300 milhões, está previsto como obrigação da futura arrendatária da área ITJ01 do Porto de Itajaí, cujo objeto principal é carga conteinerizada. A consulta e audiência pública da ANTAQ sobre esse arrendamento correu entre 29 de junho e 13 de agosto de 2026, o edital ainda precisa passar pelo Tribunal de Contas da União e o leilão está previsto para o primeiro semestre de 2027. A arrendatária terá até o sexto ano de contrato para implantar o terminal. Quem paga é a vencedora do leilão, não o Tesouro.
Cruzeiros valorizam imóveis em Itajaí?
Não há estudo independente que meça esse efeito. O levantamento da FGV encomendado pela CLIA mede gasto por passageiro, empregos e arrecadação, e não preço de imóvel. As afirmações que ligam uma coisa à outra circulam em material de imobiliárias e incorporadoras da região. O que os números permitem dizer é mais modesto: o fluxo de cruzeiros ajuda a sustentar emprego, serviço e ocupação hoteleira fora do pico do verão, o que é diferente de empurrar preço.
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