O mapa do esgoto no litoral norte: de 97,6% em Balneário Camboriú a 15,4% em Porto Belo
O Censo do IBGE mede quanta gente vive em domicílio ligado à rede de esgoto, e a diferença entre as cidades do litoral norte é de mais de oitenta pontos. Aplicamos a régua da casa, anúncio contra contrato contra obra, e o resultado separa quem já está cavando rua de quem ainda está desenhando o projeto.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Todo mês a gente publica o Índice Orla Prime, que conta quantos apartamentos ainda não entregues existem em cada cidade do litoral norte. Em agosto foram 58.162 unidades em nove cidades.
Esta semana cruzamos esse número com outro, de uma base que não tem nada a ver com mercado imobiliário: o Censo do IBGE. E apareceu uma diferença que vale uma matéria inteira.
O número
O IBGE mede, no Censo de 2022, qual parcela da população vive em domicílio cujo esgoto vai para rede geral, rede pluvial ou fossa séptica ligada à rede. É um indicador de fonte neutra, apurado por quem não vende imóvel nem administra prefeitura.
Nas cinco cidades onde a Orla Prime atua, o resultado é este:
| Cidade | População em domicílio ligado à rede | Unidades não entregues |
|---|---|---|
| Balneário Camboriú | 97,6% | 2.255 |
| Itajaí | 80,3% | 8.894 |
| Itapema | 63,7% | 20.398 |
| Bombinhas | 15,7% | 882 |
| Porto Belo | 15,4% | 17.404 |
Percentuais: IBGE, Censo Demográfico 2022. Unidades: Índice Orla Prime, edição de agosto de 2026, contando apenas empreendimentos ainda não entregues.
São oitenta e dois pontos percentuais entre o topo e a base de uma mesma região, cidades que ficam a menos de quarenta minutos de carro umas das outras.
Antes de tirar conclusão, três ressalvas
Este é o tipo de número que rende manchete injusta, então vale colocar os limites dele antes de seguir.
⚠️ O indicador é de 2022. É a última contagem de campo disponível, e as duas cidades da base da tabela têm contrato e obra em andamento desde então. O número não é o retrato de hoje, é o ponto de partida de onde elas saíram.
⚠️ Fossa séptica não ligada à rede fica de fora da conta. Ela é solução aceita em área de baixa densidade e não é despejo a céu aberto. Ou seja, o complemento dos 15,4% de Porto Belo não é gente jogando esgoto na rua. Uma parte usa fossa que o indicador não contabiliza.
⚠️ O indicador mede coleta, não tratamento. Estar ligado à rede diz que o esgoto sai de casa por um cano, e não necessariamente que ele é tratado antes de voltar ao ambiente.
Feitas as ressalvas, o que sobra ainda é grande. E o que interessa não é o ranking: é onde cada cidade está agora.
A régua da casa: anúncio, contrato, obra
A gente já publicou aqui o método dos três degraus para não confundir promessa com asfalto. Anúncio é intenção. Contrato é ordem de serviço assinada. Obra é máquina na rua.
Aplicado ao esgoto das duas cidades da base da tabela, o método separa duas situações que costumam ser tratadas como iguais.
Bombinhas está no degrau da obra
Bombinhas opera com concessão privada, a Águas de Bombinhas. A concessionária informa ter implantado mais de 58 mil metros de rede coletora em bairros como Bombas, José Amândio, Centro e Quatro Ilhas, e prevê outros 40 mil metros neste ano.
O passo mais concreto veio do licenciamento: o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina emitiu a Licença Ambiental de Instalação da nova estação de tratamento, no bairro José Amândio. A estação atual trata 50 litros por segundo e a nova é dimensionada para 165 litros por segundo, mais que o triplo.
Existe, porém, o outro lado, e ele é público: o Tribunal de Contas do Estado determinou inspeção no contrato após denúncia sobre o ritmo de implantação da rede. A denúncia aponta cobertura em torno de 24%, considerada insuficiente frente às metas do Plano Municipal de Saneamento Básico, num contrato de trinta e cinco anos.
Ou seja: em Bombinhas a obra existe e é verificável, e ao mesmo tempo existe uma disputa aberta sobre se ela anda no ritmo contratado. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
Porto Belo está no degrau do projeto
Em 16 de outubro de 2025, a prefeitura de Porto Belo assinou as ordens de serviço que autorizam o início da elaboração dos projetos de esgotamento sanitário e de ampliação do abastecimento de água, incluindo o licenciamento ambiental. A responsável é o Consórcio Litoral, Techne e Geasa.
Antes disso o município concluiu a revisão do Plano de Saneamento Básico, que não era atualizado desde 2011, e organizou a documentação com apoio da Caixa Econômica Federal. É um avanço real, e a própria prefeitura descreve o saneamento como “um sonho antigo da população”.
Mas é preciso ser exato sobre o que foi assinado: ordem de serviço para projetar, e não para construir. Até o fechamento desta matéria, a prefeitura não publicou prazo de início de obra nem valor de investimento em execução.
⚠️ Cuidado com o “100% até 2028”. Essa meta circula em buscas sobre Porto Belo, mas a fonte que a publica é um site de divulgação de lançamentos imobiliários, e não a prefeitura. Não localizamos o compromisso com essa data em comunicação oficial do município. Se ele existir e for publicado, atualizamos esta matéria.
Por que isso importa em Porto Belo mais do que nas outras
Aqui está o cruzamento que fecha a matéria.
Porto Belo tem, hoje, 32.615 habitantes pela estimativa do IBGE para 2026. E tem 17.404 unidades em empreendimentos ainda não entregues, o segundo maior canteiro da região, atrás apenas de Itapema.
Bombinhas tem situação parecida no indicador de esgoto, 15,7%, mas tem 882 unidades não entregues. É vinte vezes menos.
A diferença não está na foto de 2022. Está no que vem por cima dela.
| Porto Belo | Bombinhas | |
|---|---|---|
| População (2026) | 32.615 | 29.722 |
| População ligada à rede (2022) | 15,4% | 15,7% |
| Unidades não entregues | 17.404 | 882 |
| Estágio do saneamento | projeto contratado | obra em execução |
Fontes: IBGE (estimativa 2026 e Censo 2022), Índice Orla Prime de agosto de 2026, prefeitura de Porto Belo e Águas de Bombinhas.
Não é uma crítica a Porto Belo, e não é previsão de nada. É uma questão de sequência: a cidade que mais precisa correr com a rede é a que tem o maior volume de novas unidades chegando por cima de um sistema que ainda está sendo desenhado.
E vale registrar o outro lado da tabela: Balneário Camboriú prova que dá para resolver. Chegou a 97,6% sendo a cidade mais verticalizada do litoral, com 3.078 habitantes por quilômetro quadrado. Densidade não impede saneamento. Só torna o atraso mais caro.
O que perguntar antes de assinar
Se você está comprando na planta em qualquer uma dessas cidades, duas perguntas resolvem o assunto e cabem numa conversa:
-
Como o esgoto deste empreendimento será destinado na entrega? As respostas possíveis são três: rede pública já existente na rua, rede prevista mas ainda não construída, ou solução própria do condomínio. As três são legítimas, e mudam bastante o que você está comprando. A resposta tem que estar no memorial descritivo, não na conversa.
-
Qual a balneabilidade da praia mais próxima? O Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina mede e publica ponto a ponto, de graça, ao longo da temporada. É dado de fonte neutra e é o teste prático de tudo que está nesta matéria.
Nenhuma das duas perguntas é agressiva, e nenhuma construtora séria se incomoda com elas.
A leitura da Orla Prime
O litoral norte tem duas velocidades, e elas não se separam por preço nem por prestígio: se separam por quando cada cidade começou.
Balneário Camboriú fez a rede antes do boom e hoje colhe isso. Itajaí, com estrutura portuária e orçamento grande, chegou a 80,3%. Itapema, que cresceu rápido e cedo, está em 63,7% e no meio do caminho. Bombinhas está com máquina na rua e um contrato sob fiscalização. Porto Belo, que é hoje um dos maiores canteiros do país em número de unidades, está com o projeto contratado e a obra ainda por começar.
Isso não muda se um empreendimento é bom ou ruim. Muda a pergunta que você faz antes de assinar, e muda o que você acompanha depois. É informação de infraestrutura, do mesmo tipo que a gente publica sobre canal de acesso, avenida e terminal, e ela vale exatamente porque quase ninguém coloca na mesa na hora de vender.
A régua continua a mesma: anúncio não é contrato, e contrato não é obra. No esgoto do litoral norte, hoje, essas três palavras descrevem três cidades diferentes.
O que a gente vai cobrar: a publicação do projeto de Porto Belo e a definição de prazo e valor da obra; o resultado da inspeção do Tribunal de Contas em Bombinhas; e o início da construção da nova estação de tratamento de Bombinhas, já licenciada.
Quer entender o que isso significa para um empreendimento específico, com o memorial na mão? A Bússola Orla Prime é um diagnóstico gratuito, e essa é exatamente uma das checagens que a gente faz.
Perguntas frequentes
Qual a situação do esgoto nas cidades do litoral norte de Santa Catarina?
Pelo Censo de 2022 do IBGE, o percentual da população que vive em domicílio com esgotamento sanitário por rede geral, rede pluvial ou fossa séptica ligada à rede é de 97,6% em Balneário Camboriú, 80,3% em Itajaí, 63,7% em Itapema, 15,7% em Bombinhas e 15,4% em Porto Belo. É a fotografia de 2022, e as duas cidades com o menor percentual têm obras e contratos em andamento desde então.
O que o IBGE considera esgotamento sanitário adequado?
No Censo de 2022, o indicador mede a parcela da população residente em domicílios particulares permanentes cujo esgoto vai para rede geral, rede pluvial ou fossa séptica ligada à rede. Fossa séptica que não é ligada à rede fica de fora da conta, mesmo sendo uma solução aceita em área de baixa densidade. Por isso o número não deve ser lido como se todo o restante despejasse esgoto bruto.
Porto Belo está construindo rede de esgoto?
Em outubro de 2025 a prefeitura assinou as ordens de serviço que autorizam a elaboração dos projetos de esgotamento sanitário e de ampliação do abastecimento de água, além do licenciamento ambiental, com o Consórcio Litoral, Techne e Geasa. Isso é a etapa de projeto, que antecede a obra. A prefeitura não publicou, até o fechamento desta matéria, prazo de início de obra nem valor do investimento em execução.
Bombinhas está construindo rede de esgoto?
Sim, e essa é a diferença entre as duas cidades. A concessionária Águas de Bombinhas informa ter implantado mais de 58 mil metros de rede coletora e prevê outros 40 mil metros, e o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina emitiu a Licença Ambiental de Instalação da nova estação de tratamento, que sai de 50 para 165 litros por segundo. Em paralelo, o Tribunal de Contas do Estado determinou inspeção no contrato após denúncia sobre o ritmo de implantação.
O esgoto influencia na compra de um imóvel na planta?
Influencia em duas coisas concretas e verificáveis. A primeira é como o esgoto do prédio será destinado na entrega, se por rede pública existente, por rede prevista mas ainda não construída, ou por solução própria do condomínio. A segunda é a balneabilidade da praia mais próxima, que o Instituto do Meio Ambiente mede e publica ponto a ponto. As duas perguntas cabem numa conversa antes da assinatura.
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