O dique de R$ 95 milhões que deve segurar a cheia do Rio Camboriú está com a licitação suspensa
O consórcio dos municípios da foz do Itajaí abriu em setembro a maior licitação da região no período: um parque inundável com dique de 1,6 km em Camboriú, para amortecer cheia e guardar água para o verão de Balneário Camboriú. Em 8 de outubro, a sessão foi suspensa para analisar impugnações, e mesmo depois dela a obra só começa com licença ambiental e aval da Caixa.
Imagem ilustrativa gerada por IA
A maior licitação aberta no litoral norte de Santa Catarina entre setembro e outubro não foi de prédio, nem de avenida, nem de porto. Foi de um dique.
O Consórcio Intermunicipal Multifinalitário da Região da AMFRI, o CIM-AMFRI, publicou no Portal Nacional de Contratações Públicas, em 2 de setembro de 2026, a Concorrência Eletrônica nº 02/2026: a implantação do Parque Inundável Multiuso na Bacia do Rio Camboriú, com valor estimado de R$ 95.213.261,53.
Em 8 de outubro, cinco dias antes da sessão de abertura das propostas, o próprio consórcio suspendeu o certame.
O que é a obra
O termo de referência descreve um conjunto de obras civis, hidráulicas e ambientais na área rural de Camboriú, a montante do perímetro urbano, sobre as várzeas do Rio Camboriú e dos dois rios que o formam: o Rio do Braço, pela margem esquerda, e o Rio Canoas, pela direita.
O centro de tudo é o Dique Camboriú, um barramento de terra atravessado na calha do rio, logo acima dos loteamentos em expansão do município.
| Extensão do dique | cerca de 1.600 metros |
| Altura máxima | até 7,60 metros sobre o terreno |
| Espelho d’água permanente | 96,5 hectares |
| Área alagada numa cheia de 2 anos | 160,4 hectares |
| Área alagada numa cheia de 100 anos | 291,5 hectares |
| Prazo de execução | 31 meses a partir da ordem de início |
| Valor estimado | R$ 95,2 milhões |
Fonte: CIM-AMFRI, Concorrência Eletrônica nº 02/2026, Termo de Referência publicado no PNCP.
Para dar escala: a área que o reservatório ocupa numa cheia centenária equivale a cerca de 400 campos de futebol.
As duas funções, e por que a segunda importa tanto quanto a primeira
O termo de referência justifica a obra com dois problemas que afetam Camboriú e Balneário Camboriú ao mesmo tempo, e eles são opostos.
O primeiro é a cheia. O documento afirma que as áreas urbanas junto ao Rio Camboriú sofrem ciclicamente com inundações severas em chuva extrema, e que o crescimento e a impermeabilização do solo nas sub-bacias tornaram a macrodrenagem convencional insuficiente.
O segundo é a falta d’água. No verão, a população flutuante de Balneário Camboriú e Camboriú eleva o consumo acima da vazão que sobra no rio para captação direta. Sem uma estrutura que acumule água, diz o documento, o abastecimento público fica em risco permanente.
O dique resolve as duas coisas com a mesma estrutura: segura o volume da cheia e guarda água para a estiagem. Entre quatro alternativas estudadas, segundo o próprio termo, a escolhida foi a do dique único no curso principal do rio.
Onde a licitação está, degrau por degrau
A gente usa aqui a régua dos três degraus: anúncio, contrato, obra. O parque inundável está no meio do segundo degrau, e ainda não chegou ao fim dele.
- Edital publicado, em 2 de setembro, com sessão marcada para 13 de outubro.
- Errata em 22 de setembro, corrigindo um requisito de qualificação técnica que pedia experiência com comporta de 1.000 cm (dez metros) e passou a pedir 1.000 mm (um metro). A diferença é de dez vezes, e muda quem consegue disputar.
- Suspensão em 8 de outubro, “decorrente da necessidade de análise técnica das impugnações ao edital e dos pedidos de esclarecimentos”. A nova data será divulgada junto com a decisão.
E mesmo quando houver vencedor e contrato, a obra não começa automaticamente. O termo de referência diz que a ordem de serviço para movimentação de terra e construção fica condicionada a duas coisas: a obtenção, pela EMASA, empresa de água e saneamento de Balneário Camboriú, da Licença Ambiental de Instalação, e o atendimento das demandas de um ofício da Caixa Econômica Federal.
⚠️ O que ainda não é público. O edital não detalha a origem dos recursos além da dotação orçamentária do consórcio, nem quem apresentou as impugnações e o que elas questionam. Quando a decisão sobre as impugnações sair, ela deve responder parte disso.
Por que isso interessa a quem compra no litoral
Duas razões concretas.
Camboriú ganhou mais moradores que Balneário Camboriú no último ano: 3.716 pessoas contra 2.851, pelas estimativas do IBGE, como mostrou o nosso levantamento. O dique fica justamente “a montante dos loteamentos em expansão”, nas palavras do termo. É infraestrutura que acompanha onde a cidade está crescendo.
Balneário Camboriú depende de água que vem de fora dela. Uma estrutura que acumule água bruta para o verão é, na prática, infraestrutura de suporte para a cidade de metro quadrado mais caro do nosso índice. Não é obra de Camboriú só, é obra das duas.
A leitura da Orla Prime
Dique, reservatório e adutora não dão foto bonita e raramente viram manchete. Mas é esse tipo de obra que decide se uma cidade que cresce rápido aguenta crescer.
O que aconteceu até aqui é normal num processo desse tamanho: edital, errata, impugnações, suspensão para analisar. Não há irregularidade apontada por órgão de controle. O que existe é um projeto de R$ 95 milhões, com função dupla e defensável, que ainda está antes do contrato, e cujo início de obra depende de uma licença ambiental e de uma instituição financeira.
Quem acompanha o litoral norte deveria ter esse projeto no radar. Ele resolve, ou ao menos ataca, os dois problemas que mais aparecem no verão de Balneário Camboriú e Camboriú.
O que a gente vai cobrar: a decisão sobre as impugnações e a nova data da sessão; o vencedor e o valor contratado; a Licença Ambiental de Instalação da EMASA; e a ordem de serviço.
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Perguntas frequentes
O que é o Parque Inundável Multiuso do Rio Camboriú?
É uma obra de engenharia hidráulica na área rural de Camboriú, a montante da cidade, nas várzeas do Rio Camboriú e de seus formadores, o Rio do Braço e o Rio Canoas. O centro do projeto é o Dique Camboriú, um barramento de cerca de 1.600 metros de extensão e até 7,60 metros de altura. Segundo o termo de referência, ele tem duas funções: amortecer as cheias que atingem Camboriú e Balneário Camboriú e acumular água para o abastecimento na estiagem e na temporada de verão.
Quanto custa o parque inundável e quem está licitando?
O valor estimado é de R$ 95.213.261,53, na Concorrência Eletrônica nº 02/2026 do Consórcio Intermunicipal Multifinalitário da Região da AMFRI, o CIM-AMFRI, sediado em Itajaí. O prazo de execução previsto é de 31 meses a partir da ordem de início, com contrato de 42 meses de vigência.
Por que a licitação do parque inundável foi suspensa?
Em 8 de outubro de 2026, a comissão de contratação do CIM-AMFRI suspendeu a sessão pública marcada para 13 de outubro, para analisar tecnicamente as impugnações ao edital e os pedidos de esclarecimento apresentados. Uma nova data será divulgada junto com a decisão sobre as impugnações.
Quando a obra do dique do Rio Camboriú começa?
Não há data. Além de concluir a licitação, o termo de referência condiciona a ordem de serviço para as obras de terra e construção à obtenção, pela EMASA, da Licença Ambiental de Instalação, e ao atendimento das demandas de um ofício da Caixa Econômica Federal. São três etapas que ainda precisam acontecer.
Quanto de área o reservatório do Rio Camboriú vai ocupar?
Depende do nível da água. Pelo termo de referência, o espelho d'água permanente ocupa 96,5 hectares. Numa cheia de recorrência de 2 anos, a área alagada chega a 160,4 hectares, e numa cheia de 100 anos, a 291,5 hectares.
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